Acerca do conhecimento disponível em torno ao caracol/ escargot Helix (Cornu) aspersa asselvajado no Brasil ! ...

17-05-2011 09:35

 

 

ACERCA DO CONHECIMENTO DISPONÍVEL EM TORNO AO CARACOL/ ESCARGOT

Helix (Cornu) aspersa

ASSELVAJADO NO BRASIL

 

Avulsos Malacológicos - AM - Florianópolis, Brazil

A. Ignacio Agudo-Padrón

Geógrafo e Malacologista Pesquisador, Projeto “Avulsos Malacológicos – AM”

 

A presente nota é produto de motivação gerada pela seguinte oportuna consulta encaminhada, através da Lista HELICICULTURA_NO_BRASIL, pela Geóloga Rita Redaelli < rredaelli@pobox.com >, em data 13/05/2011 (... sic):

 

“... alguém poderia me informar em quais regiões do sul do Brasil o Helix aspersa está mais disseminado na natureza, e quais tipos de culturas ou vegetação nativa ele mais ataca? ...”

 

Infelizmente, o nosso conhecimento atual disponível acerca desta e outras espécies de moluscos terrestres exóticos invasores ocorrentes no Brasil em vida silvestre/ asselvajada, no sentido específico da consulta ventilada, ainda hoje é bastante pontual e escasso (Agudo-Padrón & Lenhard 2010).

 

Geograficamente falando, basicamente os Estados sulinos do Rio Grande do Sul - RS (na “Grande Porto Alegre - Grande POA”, Depressão Central da Planície Costeira gaúcha) e Santa Catarina - SC (no Município de "Lages", Planalto catarinense) são as regiões onde existem as maiores/ importantes concentrações asselvajadas conhecidas deste gastrópode exótico europeu em território brasileiro, além de alguns registros sulinos no Estado do Paraná - PR, e ainda em São Paulo - SP, região Sudeste.

 

A sua presença é particularmente abundante em vida livre ou silvestre nos jardins residenciais localizados no Município e cidade de Lages, região do Planalto Serrano catarinense. Numerosos animais, atingindo um tamanho médio de 4 cm, procedentes desta localidade sulina de clima ameno, coletados principalmente em noites úmidas e chuvosas, foram examinados na oportunidade por nós (Agudo-Padrón 2007: 7), sendo todavia constatado que ditos caracóis tomaram conta dos quintais, jardins e pequenas hortas familiares existentes na cidade, ao ponto de os residentes recolher os abundantes moluscos aos baldes (... não e exagero !) para logo ser abatidos com sal grosso e simplesmente jogados fora (... sem aproveitamento culinário ou de nenhum outro tipo !), numa tentativa de controlar a sua crescente população em vida livre/ asselvajada. Impressionante situação similar só foi observada por nós, até o momento, na região do Município e cidade de Cachoeirinha, Grande POA, RS (Agudo-Padrón 2007, 2009 b).

 

Espécimes asselvajados de Lages, SC

 

Em princípio, corresponde ao ano de 1949 a primeira referência cientifica conhecida sobre a presença do escargot/ caracol europeu Helix aspersa no Sul do Brasil, especificamente para Curitiba, no Estado do Paraná - PR (Morretes 1949: 165). Tradicionalmente, vêm sendo manejado o conhecimento de que a espécie foi inicialmente introduzida no pais por imigrantes Italianos e Alemães, apenas entre as décadas dos anos 30 e 40 (Agudo-Padrón 2008: 148-149); ... porêm, outros autores vão ainda mais longe no tempo histórico, remetendo a sua introdução aos  Portugueses e localizando registros para o Sul do Brasil já nas últimas décadas do século XIX, em 1882 (Baião & Pitoni 1987: 9) para o Município de "Santa Maria", no Estado do Rio Grande do Sul - RS, por exemplo.

Ficheiro:RioGrandedoSul Municip SantaMaria.svg

Localização do Município de "Santa Maria" (destaque em vermelho) no contexto geográfico do Estado do Rio Grande do Sul, RS

 

Foto: A nossa

 "... Há notícia de que os navios portugueses e espanhóis de longo curso, durante os séculos das grandes viagens marítimas, levavam caracóis como alimento vivo ..." (Matos 1977-1979: 100).

Assim, o conhecimento da ocorrência deste molusco exótico em solo brasileiro remonta na verdade a mais de um século (Simone 1999: 7).

 

Ainda, e conforme a literatura helicicultora disponível, Helix aspersa existe hoje sob a forma silvestre/ asselvajada na região Sul do Brasil como possível conseqüência dos espécimes trazidos pelos imigrantes europeus no inicio do século XX (Ribas 1986: 20), onde fizeram sem muito êxito varias tentativas de criação de “escargots” nas décadas de 30 e 40 (Santana & Armellini s/d: 7), sendo na atualidade reconhecidas pragas de hortas.

 

E a respeito do último comentado, um curioso dado histórico (... sic):

“... Registros históricos documentais relatam que, já no início do século XX, imigrantes italianos estabelecidos em terras cafeeiras litorâneas do Estado de São Paulo consumiam, ao estilo ditado pela tradição artesanal camponesa européia (... preparados com gostosas massas de manteiga previamente temperada com ervas aromáticas, derretida ao calor do forno a lenha, escorrendo pelas bordas das grandes e vistosas conchas!...), e na falta dos seus tradicionais "Chiocciola" (escargot/caracol em italiano), caracóis nativos Megalobulimus catados na natureza (Fig. 11), e ainda, nas décadas de 1950 e 1970, comercializados para consumo (produto extrativista) nos mercados públicos do Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente.” (Agudo 2006).

 

Outras fontes de caráter técnico (Hórus 2005), por exemplo, todavia reportam/ denunciam a ocorrência geográfica asselvajada desta espécie exótica invasora européia (paleártica) para o Município de “Urbano Santos” no Estado do Maranhão - MA, região extrema Nordeste do Brasil, além das clássicas localidades reconhecidas nos Estados sulinos do RS e SC (Agudo-Padrón 2007, 2009 a: 9-Fig. 11; Agudo-Padrón 2009 b: 3-Fig. 2, 5; Agudo-Padrón et al 2009).

 

Foto: A nossa

ESPACIALIDADE DA HELICICULTURA NO BRASIL

Estados da União envolvidos até Dezembro de 2004

(- explica, em parte, a razão de ocorrência asselvajada da espécie envolvida -)

 

Para o Estado do Rio Grande do Sul - RS, a literatura se refere à espécie como a “praga das videiras gaúchas” (Agudo-Padrón 2007: 6). Mais recentemente, significativos danos e prejuízos gerados por ataques de Helix aspersa em plantas ornamentais cultivadas/ produzidas em culturas/ empreendimentos comerciais agropecuários floricultores localizados no Estado do Paraná - PR, foram ainda constatados (Ferronato 2007: 100).

 

Finalmente, qualquer espécie exótica de molusco gastrópode pulmonado europeu pertencente ao gênero Helix presente no Brasil hoje é considerada pelo IBAMA/ MMA como “Espécie Domesticada”, a partir de legislação especifica aos efeitos promulgada (Portaria IBAMA no. 93, de 7 de Julho de 1998, Art. 1 - II e III, Anexo I).

 

Para maiores informações relativas ao tema, visite ainda os seguintes links:

( I )

http://smtpilimitado.com/kennel/caracol4.pdf

- Helix aspersa no Rio Grande do Sul -

(pág. 8)

/

( II )

http://smtpilimitado.com/kennel/caracol7.pdf

(págs. 5, 6)

/

( III )

http://noticias-malacologicas-am.webnode.pt/news/helix-cornu-aspersa-asselvajado-no-brasil-memorias-historicas-e-noticias-/

 

 

Foto: A nossa

 

Referências:

 

+ AGUDO, I. 2006. Panorama da Malacocultura no Brasil - Malacocultura Continental. São Paulo: Conquiliologistas do Brasil - CDB, Junho de 2006. Disponível em: http://www.conchasbrasil.org.br/materias/malacocultura/mcontinental.asp

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I. 2007. Malacofauna “urbana” do Bairro Vila Regina, Cachoeirinha, região Metropolitana de Porto Alegre, RS, Brasil, com especial ênfase no Helix (Cornu) aspersa Müller, 1774. Informativo SBMa, Rio de Janeiro: 38(162): 6-8.

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I. 2008. Listagem sistemática dos moluscos continentais ocorrentes no Estado de Santa Catarina, Brasil. Comunicaciones de la Sociedad Malacológica del Uruguay, Montevideo, 9(91): 147-179. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/524/52412049003.pdf

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I. 2009 a. Recent terrestrial and freshwater molluscs of Rio Grande do Sul State, RS, Southern Brazil region: a comprehensive synthesis and check list. VISAYA, Cebú - Philippines (May 14, 2009): 1-13. Available online at: http://www.conchology.be/?t=41

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I. 2009 b. Malacofauna “urbana” do Bairro Vila Regina, Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, RS, Brasil, com especial ênfase no Helix (Cornu) aspersa Müller, 1774. II. Novos registros. Informativo SBMa, Rio de Janeiro, 40(168): 3-5.

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I. & LENHARD, P. 2010. Introduced and invasive exotic molluscs in Brazil: an brief overview. IUCN/SSC Internet Newsletter TENTACLE, (18): 37-41. Available online at: http://www.hawaii.edu/cowielab/tentacle/Tentacle_18.pdf

 

+ AGUDO-PADRÓN, A.I.; OLIVEIRA, J.V. de & FREITAS, T.F.S. de. 2009. Mollusc fauna of the Municipal District of "Cachoeirinha", Metropolitan Area of Porto Alegre, RS, Southernmost Brazil: Preliminary Rising, Environmental Importance and Local Impacts in the Agricultural Economy and the Public Health. VISAYA, Cebú - Philippines (June 30, 2008): 1-8. Available online at: http://www.conchology.be/?t=41

 

+ ARMELLINI, F.A.B. de & SANTANA, E. s/d. Prazer na mesa e lucro no bolso - sua excelência o escargot. São Paulo: Helicicultura Kapiatan, 144 p.

 

+ BAIÃO, R.R.G. & PITONI, V.L.L. 1987. Escargot, Escaragol ou Caracol?. Natureza em Revista, Porto Alegre, (12): 8-12.

 

+ FERRONATO, M. de L. 2007. Produção e aspectos fitossanitários da Gérbera no Estado do Paraná. Curitiba, PR: UFP,Tese Pós-Graduação em Agronomia, Doutorado em Ciências, 123 p. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Zwr_0482g_EJ:dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/12355/1/TeseMarleneDr2007.pdf+Helix+aspersa+praga+das+Videiras+no+RS&cd=6&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br

 

+ HÓRUS. Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. 2005. Espécies exóticas invasoras: fichas técnicas. Helix aspersa. Disponível em: http://www.institutohorus.org.br/download/fichas/Helix_aspersa.htm

 

+ MATOS, R.M. ALBUQUERQUE de. 1977-1979. Genética de alguns caracteres de Helix aspersa. Portugaliae Acta Biologica, Lisboa, 15 A(1-4): 99- 133.

 

+ MORRETES, F.L. de. 1949. Ensaio de Catalogo dos Moluscos do Brasil. Curitiba : Arquivos do Museu Paranaense, Curitiba, 7(1): 5-216.

 

+ RIBAS, J.F. de L. 1986. Criação de caracóis, nova opção econômica brasileira. São Paulo: Ed. Nobel, 122 p.

 

+ SIMONE, L. R.L. 1999. Filo Mollusca, Classe Gastropoda, Cap. 1, pp. 1-8. In: JOLY, C.A. & BICUDO, C.E.M. (Orgs.). Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX, 5: Invertebrados Terrestres. São Paulo, SP: FAPESP, XVIII + 279 p.

 

 

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