Crônicas de um "esquecido" empreendimento helicicultor catarinense ! ...

28-07-2011 16:35

CRÔNICAS DE UM "ESQUECIDO" EMPREENDIMENTO HELICICULTOR CATARINENSE

 

O clima no Estado de Santa Catarina, SC, e predominantemente Subtropical, sendo as temperaturas comuns na região Sul em geral as mais baixas do pais, que variam entre 17º e 21º  C, apresentando-se um pouco mais elevadas no litoral, devido a influência do oceano, fenômeno conhecido como Maritimidade, que consiste na influencia que o mar exerce (... através da circulação do ar que vem do oceano !) sobre as áreas litorâneas do continente e insulares próximas, amenizando as temperaturas e suas oscilações, classificando-se em geral dois tipos de clima: Subtropical com verões brandos, próprio da região das terras altas ou Planalto, onde não e incomum registros de temperaturas debaixo de 0º C, formação de capas brancas de congelação nas superfícies e ate precipitações de neve, entre os meses de Maio e Outubro, e Subtropical com verões quentes, predominante principalmente na região Costeira, alem de parte do Extremo Oeste Catarinense.

Nas baixadas ou planícies litorâneas de Santa Catarina as temperaturas são superiores a 20º C, havendo maior quantidade de chuvas (entre 1.200 e 1.500 mm. em media anual), apresentando um padrão chuvoso caracteriza do pela presença de chuvas finas e constantes no Inverno e chuvas mais abundantes, torrenciais e rápidas, no Verão, sendo assim o clima do subtipo Subtropical Úmido, domínio da Mata Atlântica, onde predomina a vegetação de Restingas, alem de Manguezais - um rico ecossistema que tem o seu limite sul em SC - e Floresta de Planícies Quaternárias. Particularmente, a região geográfica da Ilha de Santa Catarina e adjacências continentais, situada nas medias latitudes a 27º S, apresenta características climáticas controladas pela conseqüente convergência entre as correntes marinhas de massa Polar Marítima do Sul (das Malvinas) e Tropical Marítima do Norte (do Brasil), com temperatura média oscilando entre 18º e 15º C no Inverno e entre 24º e 26º C no Verão, sendo a média anual de 20.4º C. Hidrográfica e biogeograficamente localiza-se em uma ampla zona de transição heterogênea faunística e floristica de ambientes quentes Tropicais, incluso Caríbicos, Subtropicais e frios Patagônicos, condições que determinam uma composição heterogênea do meio ambiente local.

O fato de predominar o clima Subtropical na região, favoreceu o desenvolvimento de culturas não tropicais no Brasil, como o centeio, a cevada e o trigo, trazidas da Europa a partir do final do século XIX por imigrantes colonos Alemães e Italianos, mesmos que posteriormente, nas décadas de 30 e 40 do passado século XX, tentaram introduzir por essa época, sem êxito, tanto em Santa Catarina, SC, como em Rio Grande do Sul, RS, os primeiros escargots da espécie Helix aspersa var. aspersa Müller, 1774, onde ainda hoje existem exemplares sob forma silvestre que viraram praga de hortas inclusive, demonstrando assim o seu grande poder de aclimatação ao clima regional; contrariamente, já na década de 30, a República Argentina também importava caracóis Helix aspersa var. aspersa Müller, 1774 da Europa e iniciava experiências de criação com a espécie, coroadas pelo êxito/ sucesso, sendo que as primeiras noticias formais sobre projetos de desenvolvimento da Helicicultura no Brasil datam da década de 60, dando-se inicio só no final dos anos 70.

Justo foram essas condições climáticas e meio ambiente antes comentadas o teatro que permitiu o desenvolvimento, entre os anos de 1988 e 1997, do maior empreendimento helicicultor acometido no Estado de Santa Catarina, e talvez no Brasil tudo ...

 

RANCHO ALSACIANO - A MAIOR HELICICULTURA LITORÂNEA DO BRASIL

 

O maior empreendimento malacocultor terrestre particular jamais conhecido no Estado de Santa Catarina,  SC, e talvez no Brasil todo, foi historicamente desenvolvido e conduzido entre os anos de 1988 e 1997 pelo empresário francês (... então residente no país !) Yvan Müller e sua esposa brasileira catarinense, Ivone Trasel Müller, em fazenda da sua propriedade chamada “RANCHO ALSACIANO” - La Maison de LEscargot - (... homenagem a terra natal de Müller, ALSACIA, região do Leste da França !).

Localizado na região continental costeira domínio de restingas imediata vizinha da “Vila da Guarda do Embaú”, e a meio caminho entre os povoados de “Morretes” e “Pinheira”, a partir da BR 101 (ver Mapa anexo), no Município Palhoça da Grande Florianópolis, 35 quilômetros ao Sul da capital ( aprox. 27º 54'S e 48º 35'W ), domínio biogeográfico da região conhecida como BAIXADA DO MACIAMBÚ ou MASSIAMBÚ, o "Rancho Alsaciano" contou no seu esplendor malacocultor, sob o manejo dos seus donos, uma grande/ notável criação individual artesanal de caracóis/escargots "Grande Cinza ou Gros Gris", Helix aspersa var. maxima Müller, 1774 (... rebanho de 1 milhão de animais e produção mensal estabilizada de 200 quilos de carne !), que começou com 400 filhotes, originários de menos de uma dezena de filhotes de matrizes francesas importadas que Müller obtive numa visita a um criador de Petrópolis - RJ, mantidos em 42 parques do Rancho.

O local de criação era totalmente isolado com tela para evitar a presença de ratos e outros predadores nos parques, dotado de sistema hidráulico semelhante ao utilizado para irrigação de lavouras e cercado de tijolo e tela sombrite ou tijolo e telha brasilit, fazendo as vezes de muro, onde eram

Conchas e fragmentos do "sistema de irrigação" dos parques 

montados vários andares de telhas de cerâmica e madeira (embaixo delas os “escargots” se escondiam da luz e aproveitavam a umidade) empilhadas sobre areia (entre as filas de telhas eram plantados capim e milho), ocupando apenas dois hectares da propriedade, onde o ciclo biológico completo dos moluscos era desenvolvido em cinco parques de crescimento, com cerca de 100 mil exemplares cada, 36 parques de engorda, com 2 mil escargots em cada um, mais um parque berçário, onde ficavam as matrizes, sob trato alimentício a base de ração consistente numa mistura de fubá de milho, farinha de ostra, leite em pó e farelos de arroz e soja (600 quilos por mês) preparada no mesmo Rancho e colocada encima de tábuas espalhadas entre as telhas sobrepostas (cada tábua recebia por vez um balde com 10 quilos de ração), alem de verduras frescas (repolho, alface, beterraba) e muita água (durante meia hora por noite eles eram regados).

Empreendimento helicicultor considerado a maior criação individual conhecida no Brasil (COSTA 1993), a mesma foi um desafio pessoal que Müller venceu na época: resolveu provar que era possível cultivar escargots do gênero Helix ao ar livre em lugar quente e perto do mar ..., e conseguiu (BOBSIN 1992).

A história cronológica completa desta grande criação helicicultora, desde seus inícios, passando pelo auge e desenvolvimento da mesma, até o seu final encerramento devido a baixa rentabilidade conseqüência das incertezas do mercado interno regional e a especulação dos preços de terceiros na hora de comercializar o produto, encontra-se hoje disponível na literatura jornalística regional e até numa esquecida matéria de televisão da Globo Rural (ANÔNIMO 1991 a-b, BOBSIN 1992, COSTA 1993, DAVID 1993, ANÔNIMO 1994, SOMMER 1994, ABREU 1994, LOPES 1996).

Hoje, sob nova administração, o “Rancho Alsaciano” segue ali ...

http://www.ranchoalsaciano.com.br/guarda.php

Esquecidas no tempo e tomadas pelo mato, no solo arenoso próprio das restingas locais, até pouco tempo atrás foi possível avistar, registrar fotograficamente às estruturas físicas e, ainda, colher no local inúmeras cascas de tamanhos diversos em perfeito estado de conservação dos Helix aspersa var. maxima ali produzidos* (... verdadeira relíquia arqueológica contemporânea !), mudas testemunhas de um passado Helicicultor glorioso ...

  

* Uma amostra de 414 dessas conchas, colhidas por nós aleatoriamente no transcurso de duas visitas ao local, em datas 24/03 e 21/04 2001, apresentou uma escala de medidas compreendida entre os 16 e 42 mm de diâmetro, tomadas com ajuda de paquímetro, conforme os seguintes dados merísticos assim obtidos: 1 de 16 mm, 1 de 20 mm, 1 de 22 mm, 1 de 23 mm, 2 de 24 mm, 4 de 25 mm, 5 de 28 mm, 7 de 29 mm, 7 de 30 mm, 28 de 31 mm, 52 de 32 mm, 68 de 33 mm, 79 de 34 mm, 76 de 35 mm, 41 de 36 mm, 25 de 37 mm, 5 de 38 mm, 4 de 39 mm, 2 de 40 mm, 1 de 41 mm e 2 de 42 mm, dados conquiliológicos estes que revelaram, dentre outros, que os animais criados na época no “Rancho Alsaciano” alcançavam um tamanho meio entre os 31 e 37 mm de diâmetro apresentando maturidade reprodutiva, detectada através do desenvolvimento da estrutura conhecida entre os criadores como “debrum” (dobra notável na borda/ lábio da concha) presente nas conchas coletadas, sendo que a literatura helicicultora informa que a referida espécie pode chegar atingir diâmetros de 30 a 40 mm na fase adulta sob esta condição. 

 

 

Referências

 

+ ABREU, J. K. 1994. Paris fica na Pinheira/ Programe-se. Jornal “Diário Catarinense, Florianópolis, Sábado 09 de Abril de 1994, Variedades, pp. 6-7.

+ ANÔNIMO. 1991 a. Rancho Alsaciano. Jornal “Diário Catarinense, Florianópolis, Sábado 01 de Junho de 1991, p. 8 - Variedades/Programe-se.

+ ANÔNIMO. 1991 b . Rancho Alsaciano, degustação de escargot. Jornal “Diário Catarinense, Florianópolis, Domingo 02 de Junho de 1991, Caderno de Economia, p. 6.

+ ANÔNIMO. 1994. Criação de escargots e prejudicada pelo preço. Jornal “O Estado”, Florianópolis, Domingo 09 de Janeiro de 1994, p. 12.

+ BOBSIN, S. 1992. Um sabor francês a sua mesa. Jornal “Diário Catarinense, Domingo 22 de Marco de 1992, Revista DC, p. 8.

+ COSTA, R. de C. 1993. Criação de escargot já e uma / vira atração na Pinheira / em Palhoça. Jornal “O Estado”, Florianópolis, Domingo 17 de Janeiro de 1993, Capa e p.11.

+ DAVID, L. 1993. Sociedade - Destaque. Jornal “O Palhocense”, Palhoça, Primeira Quinzena de Maio de 1993, p. 6.

+ LOPES, M. 1996. Ex-mecânico e piloto francês cultiva escargot na Pinheira. Jornal “Diário Catarinense”, Florianópolis, Sexta-feira 05 de Janeiro de 1996, Caderno de Gastronomia, pp. 4-5.

+ SOMMER, V. 1994. Escargots, especialidade do francês Yvan Müller. Jornal “Diário Catarinense, Florianópolis, Quarta-feira 19 de Janeiro de 1994, Diário de Verão, p. 2.